285 mil pessoas em três dias.
71 artistas no line-up.
Mais de 20 marcas ocupando o mesmo território.
Não houve problema de atração. Houve excesso.
Excesso de estímulo.
Excesso de escolha.
Excesso de experiência.
Excesso de influenciador.
Excesso de trânsito.
Excesso de lounges.
O VIP.
O mais VIP.
O extremamente VIP.
Excesso de tudo.
Em qualquer direção, algo estava acontecendo.
E, visto de cima, tudo parecia funcionar.
Os palcos cheios.
As marcas bem montadas.
A estética coerente com a cultura do festival.
As marcas, inclusive, aprenderam algo importante. Pararam de impor a linguagem. Começaram a pertencer.
Menos assinatura rígida.
Mais adaptação ao ambiente.
Mais cultura.
Menos campanha.
Isso é maturidade.
Mas experiência não é apenas o que se vê. É, principalmente, o que se vive no intervalo. E é aí que a história muda.
Entre um palco e outro, entre um estande e outro, existia um outro território.
Silencioso.
Longo.
Quente.
As filas.
Filas de mais de duas horas, sob sol forte, por ativações que prometiam justamente experiência.
E, ainda assim, as pessoas ficavam.
E isso, talvez, seja o dado mais revelador de todos.
Porque, quando alguém aceita esperar, ela já entrou na experiência.
Mesmo que ninguém tenha desenhado isso.
É aqui que o Lolla 2026 revela algo mais sofisticado.
A experiência não começa quando você entra. Ela começa quando você decide esperar.
E, nesse momento, ela ainda está, em grande parte, sem autor.
Enquanto isso, do outro lado, algumas marcas operavam em outro nível.
O Méqui no Lolla não tentou parecer diferente.
Tentou ser mais ele mesmo. E fez isso de forma brilhante.
Ocupou quase 3.000m² no Autódromo como um território completo. Restaurante, ativação e cenografia convivendo no mesmo espaço, de forma integrada.
Tudo era reconhecível.
Nada precisava ser explicado.
Era confortável.
Familiar, mesmo dentro do caos.
E, no meio de tudo isso, um gesto simples, mas profundamente inteligente.
Uma máquina de reciclagem.
Você devolvia a embalagem e, em troca, recebia um cupom de desconto.
Sem discurso.
Sem esforço de convencimento.
Sem narrativa forçada.
Apenas uma lógica bem desenhada, funcionando com precisão.
Magnífico.
Porque por trás dessa simplicidade existia uma operação consistente, quase invisível:
- Reciclagem estruturada de embalagens
• Compostagem de resíduos orgânicos
• Doação de alimentos próprios para consumo
(se não estavam no padrão ideal de venda, mas ainda perfeitos para consumo, eram direcionados para doação)
• Reciclagem total do óleo utilizado
• Cardápio em braile
Nada disso era comunicado como argumento.
Era entregue.
Como prática.
E talvez esse seja o ponto mais sofisticado de todos.
Se o Lolla tivesse um momento de consagração, daqueles que ficam na memória do festival, esse espaço estaria ali.
Não pela grandiosidade.
Mas pela coerência.
Porque, no fim, o que se viu ali foi raro: uma marca operando com consistência, inteligência e responsabilidade, transformando um gesto simples em uma experiência que fazia sentido do começo ao fim.
E é exatamente isso que permanece.
A Sadia, por outro lado, operava em um território mais delicado.
Ali não era só marca.
Era uma operação real.
24 tendas.
Mais de 150 ambulantes.
Mais de 30 produtos.
Milhões de interações acontecendo ao mesmo tempo.
E, ainda assim, havia experiência.
Fluida. Contínua. Sem ruptura perceptível.
Isso não é trivial.
Porque aqui existe uma tensão importante.
Ao mesmo tempo em que a marca ativa, ela atende.
Enquanto lança produto, ela precisa operar o fluxo.
Enquanto constrói percepção, precisa entregar eficiência.
E essa é a pergunta que fica.
Dá para fazer tudo ao mesmo tempo?
Porque, no momento em que o food gera fila, a experiência começa a se fragilizar.
E, ainda assim, ali funcionava.
O que impressiona não é a criatividade.
É o equilíbrio.
Porque, quando food service, lançamento e marca se encontram, a margem de erro desaparece.
E, nesse caso, o mais interessante não foi a ambição.
Foi a execução.
Quando funciona, vira memória.
A Coca-Cola trouxe outra camada.
A percepção de que o público já não quer apenas assistir.
Quer participar.
E, mais do que isso, quer interferir.
Transformar as pessoas em parte do espetáculo parece natural hoje.
Mas está longe de ser simples.
Porque, quando todo mundo é protagonista, alguém precisa organizar essa narrativa.
Senão, tudo acontece, mas pouco permanece.
E talvez esse seja o ponto mais interessante de todo o festival.
Nada faltou.
Mas nem tudo estava, de fato, integrado.
E existe uma camada que atravessava tudo isso.
Os influenciadores.
Em muitos momentos, a sensação era de que todos estavam gravando.
Todos produzindo.
Todos, de alguma forma, ocupando esse lugar de visibilidade.
E isso cria um fenômeno curioso. Se todos são mídia, quem é a audiência?
O conteúdo se multiplica. Mas começa a se repetir. Ângulos semelhantes.
Narrativas parecidas. Registros quase idênticos.
E, no limite, tudo passa a parecer igual.
Talvez a próxima evolução não esteja em ter mais influenciadores. Mas em reposicionar o papel deles.
Menos separados.
Mais integrados.
Menos em espaços exclusivos.
Mais em contato real com as pessoas.
Interagindo nas filas.
Escutando histórias.
Construindo conteúdo junto com o público.
Porque, quando o influenciador se distancia, ele produz conteúdo.
Quando ele se aproxima, ele produz experiência.
E isso leva a uma outra pergunta, ainda mais estrutural.
E se a experiência não começasse no dia do festival?
E se ela começasse antes?
Na expectativa.
Na preparação.
Na construção de narrativa.
E, mais importante, se ela continuasse depois?
Na memória.
Na retomada.
Na continuidade da relação.
Porque hoje, na maior parte dos casos, a experiência ainda está concentrada.
Ela começa ali.
E termina ali.
Mas marcas que operam experiência como sistema entendem outra coisa. Experiência não é evento. É jornada.
E, quando bem desenhada, ela não tem começo nem fim claros. Ela se estende.
E é isso que transforma presença em vínculo.
E, no fim, talvez o mais importante não esteja em nenhuma dessas análises.
Eu fui ao Lollapalooza com a minha filha.
Fui para viver.
Claro que quem trabalha com design de experiência não desliga esse olhar.
Ele está sempre ativo. Observando. Conectando. Interpretando.
Eu poderia ficar aqui horas escrevendo.
Sobre a Vivo.
Sobre a Olla.
Sobre a Neve, e o brilhantismo de transformar papel em experiência.
Sobre o ChatGPT e a ativação que vivi ali.
Sobre cada detalhe que mereceria um capítulo próprio.
Poderia falar das conversas que tive com pessoas de fora do Brasil. De fora de São Paulo. Cada uma com uma leitura diferente, mas todas vivendo a mesma intensidade.
Mas talvez o ponto não seja esse.
O que aconteceu ali não foi só um festival.
Foi uma imersão.
Um MBA em 12 horas.
Sobre comportamento.
Sobre marca.
Sobre cultura.
Sobre o que funciona.
E, principalmente, sobre o que ainda pode evoluir.
E talvez seja isso que faz tudo valer.
Porque, no meio de tanta análise,
no meio de tanta estratégia,
no meio de tanta experiência sendo desenhada…
a gente ainda estava ali.
Vivendo.
E viver, hoje, também é um privilégio.
Num mundo atravessado por conflitos, com pessoas sendo obrigadas a deixar suas casas, e em um cenário onde nem todos conseguem acessar experiências como essa, estar ali ganha outro significado.
Eu estava com a minha filha. Em segurança. Com liberdade.
Podendo simplesmente viver.
E isso não é pouco. É muito.
Me sinto profundamente grata por isso.
Por nós duas.
E, mais do que tudo, pelo que isso representa.
Porque, no fim, mais do que festivais, marcas ou experiências… o que realmente importa é que mais pessoas possam, um dia, viver isso também.



APP Brasil – Associação de Profissionais de Propaganda
